Por Ricardo Wesley M. Borges
“Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição.
Decida o leitor entre o militar e o cônego…”
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Em diferentes momentos da vida, é razoável que alguém se pergunte se o que busca para si seria a fama ou a excelência. Claro que poderia dizer, por que não, que busca a ambos. Por um lado, o elogio através do reconhecimento público. Do outro, a satisfação que advém de realizar algo bem. A questão é que nem sempre a segunda, a excelência, leva à primeira, a fama. Um fabuloso escritor uruguaio, Juan Carlos Onetti, talvez baseado em sua própria experiência pessoal, dizia que a fama era obra de um mal-entendido:
“A grande maioria dos nossos escritores tenta alcançar o sucesso. E isso é alcançado de forma incidental e nunca deliberada. Se alcançarmos o sucesso, nunca seremos artistas plenamente. O destino do artista é viver uma vida imperfeita: o sucesso, como um episódio; o fracasso, como o verdadeiro e supremo fim.”1
Depois de toda uma vida sem talvez experimentar o tipo de sucesso que almejava, um mal-humorado Onetti não quis sair do seu apartamento em Madri para receber um prêmio literário importante que seria entregue pelo rei Juan Carlos. Deixo com cada um a avaliação acerca do que disse o escritor: seria mais do que o arroubo dramático de um artista ou há alguma verdade em suas palavras? Por um lado, pode-se argumentar que um artista, ou qualquer pessoa que queira fazer bem o seu trabalho, possivelmente sempre buscará algum tipo de reconhecimento, e que essa busca está na essência de nossa identidade, do que cremos ser nossa vocação no espaço público. Se, para um artista, essa ambição seria natural e bem evidente, por outro lado, talvez devamos reconhecer que essa ambição é mais comum do que gostaríamos de admitir. Assim, cada um de nós, em diferentes vocações, podemos estar almejando, de algum modo, o sucesso e fama, e não há problema algum em admiti-lo.
Por isso sugiro uma reflexão: qual seria a percepção de sua vocação para cada um e como alguém pode se desenvolver para fazer isso bem, com excelência? Creio que essa é uma pergunta tanto básica como essencial em decisões e caminhos que tomamos na vida. Há um conceito japonês, ikigai (生き甲斐), que tem a ver com o propósito da vida ou, dito de outra forma, com aquilo que faz a vida valer a pena. E aqui faço referência não tanto a como esse conceito do ikigai tem sido usado no Ocidente em anos mais recentes, quando uma versão dessa ideia tem sido mais aplicada em nossa vocação profissional. Segundo essa abordagem, a ênfase recai sobre quatro círculos: o que você ama; em que você é bom; o que o mundo precisa e pelo que você pode ser pago.
O que sugiro aqui, no entanto, é que coloquemos a atenção no conceito mais tradicional japonês, esse que aponta para a motivação existencial de nossas vidas, e não limitado apenas ao exercício profissional. No filme “Dias Perfeitos” (2023), Wim Wenders constrói uma estética narrativa que dialoga profundamente com a proposta tradicional de ikigai, ainda que sem menção explícita ao conceito no desenrolar da trama. O foco ali seria mais no estar presente, em fazer bem seu trabalho simples, em encontrar a beleza nos detalhes e nos rituais repetitivos, em manter relações afetivas e respeitosas, na importância de viver ou experimentar algo, mais do que falar algo. Ouvimos pouco a voz do ator principal. Mas podemos desfrutar no filme o apreço do personagem pela luz matinal, pelas árvores, pelas plantas que ele cultiva e pela música, bem como a sua aceitação silenciosa do ritmo da vida. Elas remetem a uma “razão de viver” inscrita nos gestos comuns.
Recentemente, ao contar minha história pessoal sobre como transitei de uma vocação à outra, com a ajuda de meu professor e orientador japonês, o querido prof. Akihiko Ando, fui questionado se ele havia usado comigo esse conceito do ikigai. Na verdade, o prof. Ando nunca se referiu explicitamente ao conceito em conversa comigo, mas o diálogo com ele foi esse momento eureka da descoberta de minha vocação. Eu era então um jovem estudante de Engenharia Agronômica na ESALQ/USP, bolsista em uma pesquisa sendo levada à cabo no Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo. Na crise vocacional que atravessei em meu quinto ano na universidade, eu o procurei, e expliquei a ele que eu avaliava seguir uma outra carreira, mais ligada à Teologia e ao ministério cristão. Um rumo de vida bem diferente daquele que eu trilhava até então.
Sua primeira reação foi dizer que já via em mim outra vocação. Fiquei surpreso, porque eu mesmo tinha dificuldades em ver as coisas mais claramente a esse respeito. Ele, ao ser budista, perguntou-me então como funcionava isso de alguém que se dedica ao ministério cristão. Eu expliquei o melhor que pude, ao que ele respondeu com outra pergunta: como você pensa em se preparar para fazer isso bem? Sua indagação me surpreendeu, balbuciei algo sobre possíveis cursos, sobre o tipo de formação que eu poderia seguir. Depois de ouvir atentamente, ele continuou: Ricardo, se você seguir por esse caminho, como você pensa em daqui 5 ou 10 anos, desenvolver-se para fazer isso ainda melhor? Foi quando percebi que meu professor, agrônomo, japonês, budista, estava sendo meu primeiro mentor a me orientar no caminho da vocação do ministério cristão. Hoje, 34 anos depois daquela conversa, agradeço pelo seu ouvido atento, suas percepções e sábias colocações, que me ajudaram a desenvolver-me e a crescer no caminho que escolhi, para que nessa jornada eu fizesse tudo muito bem.
O que nos leva de volta à questão da fama ou da excelência. É sempre bom que façamos pausas na vida, para acolher questões importantes e refletir nelas. Há uma autora que, ao refletir sobre vocação, também nos oferece perguntas que, creio, podem nos ajudar:
E se a sua vocação não lhe trouxer fama pública, grande aclamação ou muito reconhecimento? E se a sua vocação for algo que ninguém vê? (…)
E se a sua vocação assumir diferentes formas ao longo da sua vida, mudando de forma, cor e tamanho, da mesma forma que um carvalho cresce lentamente de uma muda a uma árvore imponente, passando de dourado a verde, a marrom e a castanho a cada estação, mas permanecendo fiel a si mesmo como carvalho? (…)
E se a vocação não for apenas o que você faz, mas como você faz?2
Nem todos terão o reconhecimento público que a excelência do seu trabalho poderia provocar. Isso muda em algo a maneira como você trabalha? Quando você naturalmente cresce e se transforma, ou mesmo quando muda o foco do que faz, como permanece fiel e íntegro a quem você é? A maneira como você se dedica ao que faz, o que isso revela sobre o seu caráter? Todas são perguntas importantes a se fazer, em especial nas transições da vida.
Há ainda algo incidental e a meu ver pouco refletido nas ambições que marcam muito de nossas trajetórias. Trata-se da confusão que as pessoas fazem, quando consideram por vezes mais importante comparar-se com os demais do que comparar-se consigo mesmo. A insegurança, ou a arrogância, de se medir com os outros como critério maior, em lugar de se medir usando como barra o período anterior a que você aprendesse ou crescesse em algo. Um teólogo croata, diretor do Centro de Cultura e Fé de Yale, Miroslav Volf, lançou recentemente um excelente livro sobre a armadilha que vem com o que ele chama de esforço por superioridade. Seguindo o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813 – 1855), ele afirma que esse esforço solapa a nossa humanidade. Claro que a comparação e a competitividade saudáveis nos ajudam, mas também há algo sutil e perigoso, em um ciclo vicioso:
Quando nos consideramos melhores que outros, tornamo-nos arrogantes em razão de nossa superioridade e desprezamos aqueles que são piores; quando nos consideramos piores que outros, invejamos e gememos sob o peso de nossa inferioridade. Qualquer que seja o caso, vivemos cheios de preocupação.3
Talvez tanto o cônego como o militar tivessem razão. A glória humana é tanto boa e natural como perigosa, se deixamos que essa busca modele quem nos tornamos ao final do dia. Podemos aspirar ser excelentes como Onetti, sem permitir que a amargura nos domine quando não somos reconhecidos como julgamos que deveríamos ser. A palavra vocação, que tanto foi citada aqui, implica que algo ou alguém nos chama a alguma coisa. Eu, que sou cristão, acredito que ela vem com a paz de fazer algo que entendo Deus me chama a fazer, e no esforço por fazê-lo muito bem! Cada um saberá o que ou quem o chama, e a quê. Lembrando-se que, como no ikigai japonês, a maneira de fazê-lo sempre será tão importante quanto o que você faz, encontrando beleza, verdade, presença, comunidade e razão de viver em tudo que somos e fazemos. Se com essa excelência a fama também chegar, talvez ao menos estaremos melhor preparados para lidar com ela.
Ricardo Wesley M. Borges é formado em Engenharia Agronômica pela ESALQ/USP, Estudos Bíblicos e Culturais pelo All Nations Christian College, MA em Liderança pela Open University, Reino Unido. Pastor da Igreja Metodista Livre, Concílio Nikkei, em São Paulo.
- GADEA, Omar Prego. Onetti: perfil de un solitario. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental, 1986, p. 38. ↩︎
- Karen Swallow Prior, You Have a Calling – Finding Your Vocation in the True, Good and Beautiful. Grand Rapids: Brazos Press, 2025, pág 2. ↩︎
- Miroslav Volf, O custo da ambição: como o esforço de superar os outros pode nos derrubar. São Paulo: Mundo Cristão, 2025, pág. 50. ↩︎

